Patrimônio Historico e Cultural

Tiro ao alvo no Mercado Municipal

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Você sabia que já se praticou tiro ao alvo no Mercadão? Antes que pergunte: não havia uma área de recreação lá dentro! E se eu lhe contar também que o alvo eram os personagens dos belos vitrais que enfeitam as paredes do lado direito do Mercadão?! Você não deve estar acreditando, mas é a pura verdade.

A construção do mercado já estava concluída em 1932, mas estoura a “Revolução Constitucionalista”. Então o espaço foi utilizado para abrigar as tropas revolucionárias e munições. Os soldados, jovens que haviam se alistado, começaram a treinar a pontaria nas pessoas que estavam  retratadas naqueles vitrais e que consumiram cinco anos de trabalho de Conrad Sorgenicht Filho (1904-1994). Como o novo mercado  seria um centro de recepção de produtos de várias regiões do Brasil, para depois serem comercializados, ele percorreu diversas regiões fotografando os trabalhos na Agricultura, Pecuária, Avicultura, e também as formas de transporte utilizadas: trem, a boiada que vinha tocada e as canoas que buscavam bananas na região do Vale do Ribeira, na época ainda não existiam estradas.

Como nosso foco aqui é o Mercado Municipal de São Paulo e não a revolução, vamos direto para o fim deste episódio, quando o autor dos vitrais precisou de vários meses recuperando os danos por tiros para que a inauguração ocorresse em 25 de janeiro de 1933, no aniversário da cidade.

A história dos vitrais não para por aí. Em 1980 foi feita uma restauração por Conrado Sorgenicht Neto, filho do autor e em 2004, na grande reforma do Mercado, foram substituídos todos os vidros (quebrados ou recuperados inadequadamente), por outros importados da França e que foram fixados com ligas de chumbo. Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto responsável por essa reforma, projetou um mezanino com 2.000 metros quadrados, aproveitando o  pé direito de 10 metros e nele implantou uma praça de alimentação composta de restaurantes com cozinhas diversificadas, mas somente restaurantes, nada de lanchonetes ou os famosos “fast foods” sempre presente nos shoppings. Esse mezanino passou a ofecer à cidade e aos visitates o melhor lugar para se apreciar os vitrais, pois estão na parede oposta e mais na linha do nosso olhar.

Do mezanino, além de apreciar os vitrais e saborear mais uma das delícias da culinária paulistana, temos também  uma visão geral do “Mercadão”: mais de 250 boxes com variedade de frutas e de temperos.

O material de divulgação do Mercadão Municipal de São Paulo reporta que são mais de 10.000 itens à venda.  Você leu corretamente: dez mil itens!

Além da grande diversidade, um  mesmo produto pode oferecer  uma  variedade muito grande, um exemplo: azeitonas verdes, , azeitonas pretas, , azeitonas da Grécia, do Líbano, de Portugal, do Chile, recheadas, com caroço, sem caroço, pequenas, grandes… Muitas frutas nacionais e  importadas, várias desconhecidas que os vendedores oferecem para degustação e nos explicam como devemos consumi-las. É um passeio incrível!

As frutas selecionadas são bonitas, coloridas, bem dispostas nas barracas e com isso se forma um belo cenário que encanta os olhos e desperta o paladar. As barracas são cinematográficas. Aliás, uma delas esteve presente na novela A Próxima Vítima, de autoria do paulistano Silvio de Abreu que sempre inclui a metrópole em várias tramas da TV com cenas no Mercadão. Essa novela é de 1995 e desde então a barraca passou a ser “A barraca do Juca”, nome do personagem vivido pelo ator Tony Ramos, ficando como a única intervenção ocorrida após a novela que teve muito zelo, durante as gravações, com esse patrimônio historico e cultural.

“Mercadão” é um apelido carinhoso, já que o nome oficial, conforme decreto 35.275, de 06/07/1995, é Mercado Municipal Paulistano. Hoje é  uma das principais atrações turísticas de São Paulo, tanto para os paulistanos como para os visitantes. Fotografar, experimentar frutas exóticas, comprar temperos de todas as partes do mundo e saborear o famoso sanduiche de mortadela ou o pastel de bacalhau. Curiosidade: O mercadão é o lugar no mundo onde mais se consome bacalhau! Duvida?! Vá até o Empório Chiappetta, uma das bancas pioneiras, e verá a foto do Rei da Noruega Harald V visitando a banca em 1988. Foi uma visita oficial, acompanhado pela à época prefeita Marta Suplicy, com o objetivo de firmar novas parcerias comerciais entre os países, bem como verificar o interesse por outros peixes noruegueses, além do bacalhau, principalmente pela pressão que sofria por entidades contrárias à enorme quantidade de bacalhau pescada na Noruega, em partes pela alta demanda do Mercadão. Além de ver a foto aproveite para receber ali uma aula sobre o peixe, já que o Chiappetta é um mestre no assunto e, claro, além da aula aproveite para fazer uma comprinha.

O Mercadão recebe visitantes do todo o mundo, por isso as placas indicativas estão escritas em português, espanhol e inglês. Durante o ano letivo é comum a presença de estudantes, da Capital e de muitas outras cidades paulistas, não apenas se alimentando mas pesquisando a diversidade gastronômica, um aspecto cultural de São Paulo, já que ali na na Rua da Cantareira, temos o maior ícone gastronômico do pais!

Além das balas, o Mercado já passou por outra história triste. Entre os anos 70 e 80 se pensou em derrubar o Mercadão! Causa espanto e indignação ao pensarmos nesse, que conhecemos  a partir de 2004 após a reforma. O prédio era o mesmo mas o interior estava seriamente comprometido, instalações elétricas precárias, esgoto direto no Rio Tamanduateí, não havia um sistema geral de gás (cada bar ou restaurante utilizava vários bujões de gás) e faltava sanitários para o público. Bem diferente de seu início  grandioso, quando foi contratado o grande construtor Ramos de Azevedo, com um projeto de 1925 do arquiteto Felizberto Ranzini. As obras começaram em 1928, mas Azevedo não pôde acompanha-las, pois faleceu nesse mesmo ano. Severo & Villares, seus sócios no escritório, tocaram a obra inspirada no Mercado de Berlim com azulejos vindos da Bélgica e da Alemanha, coluna em estilo grego jônico e dórico, telhas de vidro e claraboias para desfrutar da iluminação natural. Tudo foi pensado e detalhado. Há uma pequena exposição no Prédio dos Correios, com fotos e detalhes da construção daquele e de outras construções do escritório de Ramos de Azevedo. No projeto do Mercado é possível verificar os desenhos em nanquim, onde até  as cadeiras dos engraxates e os viveiros para a venda de aves vivas (que até algum tempo acontecia ali), estavam presentes. O projeto visava a substituição de um outro mercado que existia na Rua 25 de Março, onde desemboca a  Ladeira General Carneiro, que fora demolido e no local implantada a Praça Fernando Costa, hoje lotada de barracas de vendas de roupas, calçados e outros artigos populares. O ponto escolhido foi estratégico pois ficava perto do pátio de cargas da estrada de ferro Santos-Jundiaí, no Pari, e também próximo ao Rio Tamanduateí, por onde chegavam produtos da região do ABC Paulista.

A cidade cresceu muito, o trânsito foi ficando complicado para a chegada dos produtos e para a movimentação dos comerciantes que iam lá se abastecer, além disso, o local era assolado por terríveis enchentes, causando  grandes prejuízos e impedindo o funcionamento do mercado por vários dias causando crises de abastecimento, como aconteceu em março de 1966. Por tudo isso, se pensou em levar essa central de abastecimento para outro local e no início de 1960 é criado o “Centro de Abastecimento de São Paulo (o CEASA que depois passou a ser CEAGESP), no bairro do Jaguaré, na Zona Oeste da cidade. Foi aí que começou a decadência do mercadão, com foco restrito ao consumidor final e não mais ao grande atacado. Alguns permissionários permaneceram (como são chamados os que possuem as barracas que são todas da Prefeitura): as barracas de peixe, de carne, os temperos (muitos deles somente ali encontrados),  a comercialização de bacalhau que atraia uma parcela de público que buscava qualidade sem se importar muito com a aparência do local. Foram esses permissionários e alguns frequentadores que lutaram para que não fosse derrubado e em 1988 foi dado início ao processo de tombamento, concluído em 2004.

Falar da grande reforma, que contou com uma verba com o “BIRD” (Banco Internacional de Desenvolvimento), é remeter aos dias atuais do Mercado Municipal, pois em aproximadamente 6 meses, com 700 operários trabalhando 24 horas por dia e sem interromper as atividades comerciais, foi possível modernizar todo o espaço, sanando os problemas estruturais e aumentando em 60% a área construída, assim, alem do mezanino, que já comentamos, foi criado um subsolo com 1.600 metros quadrados, sendo retirados para isso mais de 1000 caminhões de terra. Olhando a foto atual e a da inauguração, aparentemente, o tamanho é o mesmo, porém, se repararmos, uma boa parte do mercadão mais parece uma praça de alimentação, muitas lanchonetes, sorveterias substituirão as antigas barracas que ofereciam produtos que tiveram sua época: baldes de metal, vassouras e filtros de barro, por exemplo. Alguns boxes ainda resistem, como um que vende fumo de rolo e que muitas pessoas nem sabem o que é e para que serve. Logo devem desaparecer pois o ponto é valioso sempre tem investidores procurando pelos espaço para instalar algo que atraia mais turistas e frequentadores.

O Mercadão tem muito para nos oferecer e sempre tem algo novo, mas da próxima vez que for até lá aprecie, sem moderação, os vitrais.

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