História

São Paulo e a “Gripe Espanhola”

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Heródoto disse: “Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. Entender o que aconteceu em São Paulo na chamada Gripe Espanhola, ajuda a compreender o que está acontecendo na pandemia do Coronavírus.

Dia 10 de maio, na live sobre a Gripe Espanhola em São Paulo, citei dois livros bastante interessantes sobre o assunto, Também mostrei as capas, a pedido do Tiago Lucio, CEO da plataforma GoGuidia, que organizou o evento pelo Instagram. Após a transmissão, várias pessoas mandaram mensagens pedindo o nome desses livros, o que demonstra o interesse pelo assunto. Sendo assim, vamos falar um pouco sobre eles e citar um outro que não foi mencionado por conta do tempo que era restrito.

Se você procurar no Google livros sobre a Gripe Espanhola vai aparecer uma quantidade razoável deles, tanto internacionais como nacionais, mas nem sempre foi assim. A pandemia atual despertou o interesse pela gripe de 1918, até então algo quase totalmente esquecido. Lembro que ao falar desse assunto muita gente ficava admirada, acho que até incrédula diante dos fatos mencionados e do número de mortos, não só em São Paulo, como em todo o mundo.

A GRIPE ESPANHOLA EM SÃO PAULO  – Epidemia e Sociedade, foi publicado pela Editora Paz e Terra e escrito por Claudio Bertolli Filho, historiador formado pela USP que em 1986 fez uma tese de mestrado sobre epidemia e sociedade. Betolli Filho lançou em 1989 um pequeno artigo na revista “Ciência Hoje” tratando desse mesmo assunto. A pesquisa foi sendo ampliada até que virou um livro, que só foi publicado em 2003, pioneiro nesse assunto.

Bem fundamentado, leitura agradável, ilustrado com divertidas “charges”, de autoria de Voltolino, referentes à pandemia publicadas nos jornais da época. Apresenta muitas fotos das manchetes na primeira página com o nome do jornal e data das publicações. Os jornais da época foram as principais fontes de pesquisa para o livro. Ele nos esclarece que a “gripe espanhola”, com todos os infectados e com todas as mortes que causou, não foi mencionada nos relatórios oficiais e que os números informados de mortos, não são confiáveis, devem ter ocorridos muito mais óbitos. Derruba também o mito que a Gripe Espanhola foi “democrática”, matando ricos e pobres. Numa tabela é apresentada a mortalidade gripal no município de São Paulo por distrito de 15 de outubro a 19 de dezembro de 1918. Na coluna “mortalidade por 1000 habitantes o distrito Sé (a parte bem cuidada da cidade) apresenta 6,40 por 1.000, o Belenzinho, bairro de operários o dobro 13,36 por 1.000.

O autor nos mostra como o Comércio, que teve grande prejuízos com a paralização, também vislumbrou a possibilidade de ganhar dinheiro com a gripe. Apresenta como exemplo o comparativo de dois anúncios do mesmo produto, no mesmo jornal “O Estado de São Paulo” Publicado no dia 22/09/1918 o “Filtro Fiel” era apresentado como preventivo para doenças infecciosas purificando a água a ser bebida, dia 20/10 a mesma imagem do anúncio só que no topo em destaque *” A Hespanhola” e já proclamando que utilizando o filtro ” V.S terá a certeza de estar absolutamente imunizado”.

Estamos acostumados a falar “gripe espanhola” mas os jornais da época mencionavam ” a Hespanhola” ou a “INFLUENZA HESPANHOLA”.

Claudio Bertolli Filho nos conta que “mais de 300 diferentes anúncios divulgaram cerca de 112 drogas e mais 18 outros produtos e procedimentos que se diziam “preservativos” ou “específicos” para a gripe”

Vamos encontrar nesse livro a resposta para muitas indagações relativas ao momento que vivemos. Como terminou a gripe espanhola? Foi descoberta alguma vacina? Como foi a volta à normalidade? Por que esse quase total silêncio por 100 anos?

Não foi encontrada nenhuma vacina. A gripe foi diminuindo de intensidade a quarentena foi encerrada em 1 de dezembro, um domingo, a urbe pode voltar a contar com seus cinemas, bares, teatros e cassinos. As escolas não precisaram reabrir , pois todos os alunos foram promovidos automaticamente por decisão do Senado Federal” noticiava um jornal da época. A população queria trabalhar, passear, se divertir, viver. Esquecer o que foi considerado uma guerra em que São Paulo foi derrotada.

O livro traz todas as fontes de consultas: Documentação administrativa oficial e de instituições não governamentais, estudos médicos tanto nacionais como internacionais, relação dos jornais pesquisados.

“NEVE NA MANHÃ DE SÃO PAULO” foi o outro livro citado na live. A obra de José Roberto Walker, que também é historiador, fou publicado pela Editora Companhia das Letras em 2017. O título se refere a um fato realmente acontecido na manhã do dia 25 de junho de 1918. São reais todos os fatos narrados no livro, os personagens são personalidades conhecidas e apenas o narrador da estória é fictício.

O foco do romance são alguns dos muitos amores de Oswald de Andrade, mas o autor nos mostra também o momento conturbado em que a população de São Paulo vivia os terríveis 4 G’s: Greve, Geada, Gafanhotos, Gripe. Podessmos ressaltar a “Greve Geral”, em 1917, que por alguns dias parou São Paulo, e a “GRIPE ESPANHOLA”, em 1918, que parou São Paulo por dois meses e matou muita gente (mais de 5000 pessoas numa população de 550 mil habitantes!).

Com essa narrativa ficamos sabendo, por exemplo, que os ricos estando gripados se recusavam a ir para um hospital, queriam que os médicos fossem até suas casas para serem atendidos, diziam “hospital é para os pobres”, com esse comportamento os médicos se tornaram insuficientes, acabavam sendo contaminados, contaminando a família e falecendo.

Interessante também é o que nos conta a respeito de Monteiro Lobato. Ele era amigo da turma de Oswald de Andrade por isso é mencionado no romance em duas situações, numa delas foi ao assumir a redação de “O Estado de São Paulo” e redigir praticamente todo o jornal, pois todos da seção, inclusive os diretores, estavam ausente em função da gripe. Ele não fazia parte do jornal mas estava sempre por lá, era um “sapo” como se dizia na época a respeito de escritores, candidatos a jornalistas, que ficavam pelas redações.

Nesse livro, como no citado anteriormente, o autor vai utilizar de notícias de jornais para documentar sua estória. “A Gazeta”, no dia 2 de dezembro de 1918, noticia como foi o dia anterior, quando termina a quarentena e voltam a funcionar teatros e cinemas dizia o jornal: “Ontem tivemos ocasião de constatar que a vida normal da cidade completamente se restabeleceu, como uma prova evidente, tão evidente quanto às estatísticas que a epidemia esta em vésperas de ser inteiramente eliminada e que já não se constitui o monstro pavoroso que por tantos dias encheu de justificado medo nossa população. De dia, a cidade apresentou um aspecto festivo, sendo notável a concorrência do Hipódromo, para onde acorreram numerosas famílias da nossa melhor sociedade e os teatros e cinemas estiveram repletos em suas matinês. À noite, todas as casas de diversões lograram um público avultado, tenho estado animadíssimas as ruas do Triângulo até depois das 22h”.

Interessante o comentário do narrador sobre o fim da gripe espanhola, reforça o que foi mencionado no outro livro, a ideia de apagamento daquele período. “Acho que os paulistanos preferiram borrar essa imagem tenebrosa, e já naqueles dias, logo depois que a gripe abandonou São Paulo, podia se perceber isso. Quando o perigo passou, as notícias sobre a gripe foram relegadas a um cantinho de página, mesmo que a vítima fosse alguém importante.

 

Em “A CAPITAL DA VERTIGEM”, Editora Objetiva, o autor Roberto Pompeu de Toledo relata com brilhantismo os acontecimentos marcantes em São Paulo entre 1900 e 1954 (ano do Quarto Centenário da cidade). No capitulo IX, intitulado “Dias de Medo e de Morte”, aborda a Gripe Espanhola em 17 páginas com muitas informações e novos detalhes. No caso do Monteiro Lobato ele complementa mencionando que este modificou a redação das notícias, corta adjetivos usados com abundância como era costume na época. Temeu que na volta dos diretores iriam reclamar das mudanças efetuadas, mas pelo contrário, foi muito elogiado mas não permaneceu na redação porque contraiu a “espanhola”, assim como também seus filhos. Só ficou livre da doença a “Dona Purezinha”, sua esposa e felizmente todos foram curados. Lobato não pôde ficar na redação por causa da a gripe espanhola, mas ela lhe rendeu o conto “Fatia de Vida” onde reflete a convicção popular de que “quando não se morria de gripe, morria-se de hospital”. Gerei curiosidade para que saiba dessa estória? Pois bem, essa eu não vou contar! Vou deixar para você ler. É fácil de ser encontrada, está em seu livro de contos: “Negrinha“.

 

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