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Passeando pelas canções de Adoniran Barbosa

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Aos que visitam a cidade de Liverpool são oferecidos diversos tours com o tema “Beatles” passando por locais referentes à vida e à carreira deles. Em São Paulo podemos oferecer passeios por lugares e ruas que nos remetem às canções criadas por Adoniran Barbosa.

Não precisamos ir até a Vila Esperança, ao Morro da Casa Verde, à casa do Arnesto no Brás ou ao alto da Mooca,onde a turma da saudosa maloca conseguiu um terreno, para visitar a São Paulo de Adoniran. Tampouco ao Bixiga ou ao Jaçanã, mesmo porque o trem nem existe mais. Vamos concentrar nosso passeio no centro da cidade.

Nosso tour começa na estação Sé do Metrô com a música “Triste Margarida” também chamada de Samba do Metrô. Ela nos remete ao período de construção do Metrô, iniciada em 1968 e podemos notar o desejo das pessoas em experimentar aquele novo meio de transporte. Para conquistar a moça, o personagem da música estava prometendo a ela que seria a primeira passageira do metrô. Relata também a formação dos jardins nos barrancos da Av. 23 de Maio que foi inaugurada em 1969 (detalhe: “margarida”, mencionada na canção, não se refere à flor mas ao apelido dado às varredoras de ruas).

Adoniran foi um cronista, registra em suas canções momentos e pessoas de nossa cidade, por isso, em alguns casos, se faz necessária uma explicação para os que não moravam aqui ou que não viveram aquela época.

Junto às escadas de acesso, uma torre exibe um relógio e a data: 17 de fevereiro de 1978, dia em que a estação foi inaugurada e com ela a nova praça da Sé, agora com 50 mil metros quadrados de área, modernas esculturas e espelhos d’água. Adoniran estava presente na inauguração, não poderia faltar, pois era um frequentador assíduo da anterior e a comparação entre as duas que faz na canção que foi lançada também nessa data, ele já havia manifestado numa entrevista anterior.

Caminhando pela Rua Roberto Simonsen, numa casa ao lado do Solar da Marquesa de Santos uma placa nos informa: “Casa Número 1, Casa da Imagem”, que é o nome que batiza o atual museu, mas até o final dos anos 70 ali esteve instalada por muito tempo a famosa “Central de Polícia”, um dos lugares onde “Mané” foi procurar pela mulher que “saiu dizendo que ia comprar um pavio para o lampião”. O que teria acontecido com ela? Clique aqui e ouça a estória.

Nosso destino agora é um local bastante importante na carreira de Adoniran, no belo “Palacete Tereza Toledo Lara”, situado na Rua Quintino Bocaiuva, esquina com Rua Direita e com a Rua José Bonifácio. Lá estava instalada a Radio Record que além de programas musicais apresentava em seu auditório humorísticos e radioteatros com grande afluência de público. Adoniran participou desses programas, foi artista com carteira assinada (subindo até o primeiro andar, você poderá conferir uma a cópia do contrato de trabalho firmado entre a Record e João Rubinato, seu verdadeiro nome). O programa onde atuou com grande sucesso por vários anos, foi “História das Malocas”, escrito pelo genial Oswaldo Molles. Adoniran interpretava o malandro “Charutinho” que sempre se dava mal. O personagem tinha dois bordões (aquelas falas marcantes de um personagem cômico): “Chora na Rampa” e “Aqui Gerarda“, que virou música de Carnaval.

O “Largo da Misericórdia”, hoje em dia, é difícil de ser notado e fica entre o início da Rua Álvares Penteado e a Rua Direita bem próximo da Rádio Record, porém, é lá que ficava a Rádio Kosmos. Várias vezes Adoniran foi lá tentar o início de uma carreira artística participando de programas de calouros. Naquela época, esse foi o caminho trilhado por muitos artistas consagrados, mas João Rubinato (ainda não havia escolhido o nome artístico) era sempre eliminado.

Vamos para um lugar onde o artista foi um vencedor. Na Rua Boa Vista, temos uma pequena placa com a fotografia de Adoniran, na fachada de um bar, colocada por admiradores, o que nos remete a algo relativo à sua carreira ocorrido naquele local ou próximo a ele, essa placa relata que no “Teatro Boa Vista” (um pouco mais à frente na mesma rua, na esquina da Ladeira Porto Geral), em 1935, Rubinato foi o ganhador de um prêmio por sua música, a “Dona Boa“, ter sido classificada em primeiro lugar num concurso de marchinhas de Carnaval, realizado pela Prefeitura de São Paulo. O que ele fez com o dinheiro? Ele mesmo conta:

tinha poucos amigos, com o prêmio arrumei muitos, então “bebemos o prêmio todo”!

Bem perto, fica o belo Viaduto Santa Ifigênia, inaugurado em 1913. Após ser reformado ganhou uma bela homenagem do Adoniran: “Viaduto Santa Ifigênia“. Mais uma canção que retrata uma situação real. Em 1978 o Viaduto Santa Ifigênia, após 60 anos sem conservação, foi entregue à população com sua estrutura metálica restaurada e pintada, além de ter sido transformada em calçadão com um piso de pastilhas que formam desenhos geométricos. Antes disso, estava numa situação bem crítica que chegaram a pensar até em derrubá-lo, pois sua estrutura estava com problemas e a utilidade diminuiu muito com a existência da estação São Bento do Metrô. Do centro do viaduto podemos observar o Vale do Anhangabaú, onde, antes da inauguração do Sambódromo, aconteciam os desfiles das escolas de sambas.

Trinta anos depois, o Carnaval proporcionou a Adoniran mais uma vitória, uma grande vitória: ganhou em primeiro lugar no concurso de músicas carnavalescas do Rio de Janeiro, em 1965, ano do Quarto Centenário da Cidade e com um tema paulistano, o “Trem das Onze

Descendo a rua do Seminário passamos pela Praça do Correio e já estamos na av. São João. Vocês repararam que em várias músicas ele cita a Av. São João? Uma estória triste acontecida na São João está contada em “Iracema“. Adoniran morou na Av.São João, próximo à Praça Júlio Mesquita. Passeava pelos arredores com seu cachorro “Peteleco” e foi nessas andanças que conheceu, na Rua Aurora, alguns homens que fizeram em uma casa velha, um palacete assobradado, sua maloca que seria derrubada para a construção de um prédio. O prédio foi construído. Na parede junto à porta, uma placa daquelas que mencionei anteriormente, comprova que ali surgiu a inspiração para uma de suas músicas mais famosas, Saudosa Maloca, gravada inicialmente por ele, sem grande êxito, e depois pelos “Demônios da Garoa”, sendo sucesso até hoje, o primeiro de uma série de muitos dessa parceria.

Adoniran era freguês assíduo do restaurante “File do Moraes” na Praça Júlio Mesquita, em frente à escultura “Fonte Monumental” toda em mármore Carrara representando seres do mar, nas beiradas lagostas em bronze completavam a obra. Certa noite as lagostas “sumiram” e surge a canção de Adoniran registrando o fato. Devem ter sido roubadas ou derretidas como nos fala, pois as que vemos hoje são outras, de resina, foram colocadas quando do restauro da fonte.

E aqui termina nosso tour! Obrigado aos que estiveram conosco nesse passeio, espero que tenham gostado…

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