Patrimônio Historico e Cultural

Liberdade além do bairro Oriental

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Quando pensamos no bairro da Liberdade, em São Paulo, a primeira ideia que nos vem à cabeça é a de um bairro oriental. No início de agosto de 2018 foi acrescentada a palavra Japão ao nome da Estação do Metrô Liberdade, o que gerou vários protestos, pois de tempos para cá o bairro não é apenas formado por japoneses, mas também por chineses, coreanos… por isso passou-se a dizer: Liberdade  Bairro Oriental.

Polêmica: A comunidade descendente de africanos reivindica a  participação dos negros  na memória do bairro, afinal ali muitos deles foram enforcados, sepultados e almejam por um memorial na região do antigo cemitério.

Num tour pelo bairro da Liberdade poderemos ver muitas coisas interessantes, além do cenário criado pela Prefeitura na metade dos anos 70 com a implantação de luminárias e do Torii para reforçar a presença japonesa e oferecer possibilidade para Turismo. Entre elas, temos os itens históricos que já estavam no bairro antes dos japoneses, o que aconteceu em 18 de junho de 1908, quando desembarcaram do navio Kasato Maru no porto de Santos, 781 japoneses. Depois de passarem pela Hospedaria dos Imigrantes foram levados direto para fazendas no interior de São Paulo.

Só em 1912 alguns vieram para a capital e se instalaram na Rua Conde de Sarzedas que graças ao seu forte declive  era comum um porão nas casas que podia ser habitado (não era bom, mas era barato e muito próximo do centro). Outros imigrantes foram vindo do interior  e se instalando na região, criando comércio, escolas, jornais e logo tornou-se  um pedaço do Japão. Em 1942, quando o Brasil declarou guerra ao “Eixo” (o que incluia o Japão), além de proibir a utilização do idioma japonês no Brasil, também não permitiu que a comunidade ficasse em núcleos, como na Liberdade, e retirou do local aqueles que ali moravam. Nessa mesma rua Conde de Sarzedas  no atual número 100, já existia um Castelinho construído entre 1891 e 1895, por Luiz de Lorena Rodrigues Ferreira, sobrinho de Anna Maria de Almeida Lorena, neta do Conde de Lorena, poderosa proprietária da Chácara Tabatinguera, grande área de terras que loteou formando as ruas Conde de Sarzedas e Tabatinguera. Luiz, com mais de 60 anos se apaixona por Marie Louise Belanger, com apenas 18 anos. Para sua amada mandou construir esse Castelinho, nos moldes de castelos franceses, por isso ficou conhecido popularmente como o Castelinho do Amor. Após seu falecimento sua família continuou residindo lá até 1939. Passou depois a ter vários ocupantes e  vários usos, com o tempo entrou em decadência. Pensou-se até em derrubar o castelinho. Em 2002 o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico Cultural Ambiental da Cidade de São Paulo (CONPRESP) efetuou o tombamento. Foi quando a Fundação Carlos Chagas, proprietária do grande terreno, contrata o arquiteto Ruy Ohtake para a construção do prédio destinado aos desembargadores e aí procedeu-se o restauro. O projeto foi do arquiteto Samuel Kruchin. Após a obra concluída, instalou-se no Palacete Conde de Sarzedas o Museu e o Centro Cultural do Tribunal de Justiça, aberto gratuitamente ao público para visitação, onde se pode apreciar tanto os objetos relativos ao Tribunal de Justiça como a bela construção. É um centro cultural que promove com frequência apresentações musicais e literárias.

A Rua dos Estudantes, com topografia semelhante à Rua Conde de Sarzedas, também oferecia porões que serviram de residência para os imigrantes japoneses. Nessa rua haviam espaçosas casas feitas de pensões para os jovens que vinham de diversas partes do Brasil para estudar na Academia de Direito no Largo São Francisco, criada em 1827. Por isso p o nome: Rua dos Estudantes.

Num beco logo no início da Rua do Estudantes, próximo à Praça da Liberdade, temos o Beco dos Aflitos onde é possível visitar uma antiga construção: a Capela dos Aflitos. Em 1775, o bispo de São Paulo, Dom Frei Manoel da Ressurreição, implantou um cemitério  para escravos, enforcados e indigentes, ou seja, todos aqueles que não faziam parte de uma Irmandade, onde naturalmente seriam sepultados. O cemitério ficava numa área das atuais Ruas Galvão Bueno, Rua dos Estudantes, Rua da Glória e parte da Avenida da Liberdade. Como todo cemitério, possuía uma capela, e esta edificada em taipa de pilão, foi inaugurada em 27/06/1779, sim! Há mais de 240 anos! O cemitério foi desativado em agosto de 1858 quando é inaugurado o cemitério público municipal da Consolação e se proibiu sepultamentos em outros locais. Com o passar do tempo, a Mitra resolveu vender o terreno, preservando somente a capela, que está em atividade. Acontecem missas e para lá acorrem os devotos de Chaguinhas, um santo popular de devoção tipicamente paulistana, mas que já se expandiu até fora do Brasil como podemos ver nas placas de agradecimento às graças alcançadas deixadas por lá por seus seguidores. Interessantes é ver a quantidade de bilhetinhos com pedidos de graças colocados nas frestas das portas e das janelas. As pessoas batem três vezes na porta já que foram três as tentativas até executarem o Chaguinhas.

Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, era brasileiro, nascido em São Paulo, cabo do Exército e destacado num batalhão na cidade de Santos. Foi  acusado de liderar uma rebelião reclamando soldos atrasados e por isso fora condenado ao enforcamento aqui em São Paulo em 21/09/1821, quando o Brasil ainda era uma colônia de Portugal. A forca já existia em São Paulo desde 1592, e esteve localizada em outros locais até ser levada para um morro que foi aplainado onde está hoje a Praça da Liberdade. Primeiro foi enforcado seu companheiro de farda, o Joaquim José Cotindiba e em seguida seria Chaguinhas, como era conhecido. Ele se declarava inocente e quando foi pendurado na forca a corda arrebentou, os que assistiam ao enforcamento entenderam o fato como um sinal divino de que realmente ele era inocente, mas as autoridades não entenderam assim e por isso tentaram mais uma vez, e mais uma vez sem resultado. Até que na terceira tentativa sem sucesso, o cabo do exército foi morto a cacetadas e enterrado no cemitério ali próximo. Quem cuidava dos sepultamentos dos supliciados era a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia. Diante dessa violência com um inocente as pessoas começaram a acender velas pela sua alma e pedindo graças. Com as graças alcançadas a devoção foi aumentando o que levou o local de um simples cruzeiro a uma pequena capela, com construção iniciada em 1887 e com a primeira missa em 1891. Essa era a capela que existia quando os japoneses começaram  a chegar na Liberdade e que conhecemos hoje dedicada á Santa Cruz das Almas dos Enforcados, popularmente conhecida como a Igreja das Almas, devido ao grande número de pessoas que vão às segundas e às sextas-feiras acender velas para as almas. Há vários espaços para isso, existem duas grandes chaminés junto à torre da igreja para expelir a fumaça e uma placa interessante junto ao lugar onde se acendem as velas que nos informa: “não é permitido acender velas coloridas” (velas coloridas são utilizadas na Umbanda, religião de matriz  africana, como podemos ver na Casa Santa Rita, de artigos religiosos, ao lado da capela).

Nessa igreja as pessoas vão rezar pelas almas e pedir que elas intercedam em pedidos de graças, mas pelas almas em geral ou de seus familiares, não especificamente ao Chaguinhas, muitos que ali vão nem sabem da devoção a ele. As velas, os bilhetes, as três batidas na porta, devoções relativas especificamente a Chaguinhas acontecem na antiga capela do cemitério onde ele foi enterrado . Em qual local do cemitério?  Não se sabe…

Além dessas duas capelas com histórias interessantes, a Liberdade tem muitas igrejas, de diversas religiões, de diversos povos,  mas isso fica para um próximo texto ou melhor ainda, um próximo passeio que podemos fazer juntos pelas ruas…

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