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Histórias de São Paulo – O Nascimento da TV no Brasil

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De aglomeração de curiosos no Viaduto do Chá para ver a instalação de antenas no topo do Banespão à apresentação de gala na Sete de Abril; veja como o Centro participou do nascimento da TV no Brasil.

No dia 18 de setembro de 2020 a TV completará 70 anos. Foi nessa data, em 1950, na “Cidade do Rádio” no alto do Sumaré, que a PRF3 TV Tupi foi oficialmente inaugurada. A garotinha de cinco anos Sonia Maria Dorce, caracterizada como indiazinha, em função do nome da emissora, diante da Câmera RCA Victor declarou: “Está no ar a televisão no Brasil”.

Passamos então a ser o quarto país no mundo a ter televisão, antes de muitos países da Europa. Pioneirismo da cidade de São Paulo em toda a América do Sul. Só não fomos pioneiros na América Latina, como vinham anunciando os jornais dos “Diários Associados”, pois poucos dias antes, em 31 de agosto, o México inaugurou sua emissora. O Rio de Janeiro, naquela época capital do Brasil, só recebeu a TV no dia de seu aniversário, 20 de janeiro de 1951.

Em 18 de setembro de 1950, Assis Chateaubriand realizava o sonho iniciado em 1944 na sua primeira viagem aos Estados Unidos, quando passou por diversos lugares, teve contato com personalidades bastante importantes. Tinha 51 anos, 26 jornais, 5 revistas e 16 estações de rádio que utilizavam tecnologia RCA. Por isso, foi convidado pela direção da NBC, empresa ligada à RCA, para ir até Nova York. Aceitando o convite, lá foi mostrado a ele o que era a televisão.

Chateaubriand ficou encantado com o invento. Entusiasmado, disse a David Sarnof, diretor da RCA, que iria comprar uma emissora. O diretor respondeu que esperasse mais um pouco, se preocupasse com sua poderosa cadeia de emissoras de rádio, que televisão não era para um país como o Brasil. Chateaubriand, cheio de brios, disse a ele “pois eu não vou comprar uma, vou querer duas, uma para São Paulo e outra para o Rio de Janeiro”. Ao voltar para o Brasil, reúne-se com vários empresários liderados por Walter Belian, da Cervejaria Antarctica, e Baby Pignatari, próspero industrial atuando em diversos segmentos. Comenta com eles sobre a nova maravilha e pede apoio financeiro, pois, terminada a guerra, iria importar aquela tecnologia e instalar uma estação de TV no Brasil.

Cidade do Rádio e a TV

Em 1949, no alto do Sumaré, na chamada “Cidade do Rádio”, funcionavam a Rádio Tupi e a Rádio Difusora, com elenco de mais de cem artistas entre músicos, cantores, humoristas, radio atores, produtores, técnicos. Voltando de mais uma viagem aos Estados Unidos comunica aos artistas que no espaço onde jogavam peteca seria instalada uma emissora de TV. E mais, que já havia entregue aos diretores da RCA Victor, 500 mil dólares, primeira parcela de uma compra de trinta toneladas de equipamentos no valor de 5 milhões de dólares.

Mas, por que estamos falando de televisão num blog que aborda assuntos referentes ao turismo?

Rua Direita em meados da década de 1950

Existe alguma relação entre o Centro de São Paulo e a TV? Sim! Existem várias, inclusive a existência por cinco anos de uma emissora de televisão na Rua 7 de Abril. Vamos a elas:

  • Em março de 1950 Chateaubriand e alguns artistas foram até o porto de Santos buscar todo o equipamento para a montagem da TV. Transportado em carreta, com faixas envolvendo a carga onde se lia “Radio Tupi de Televisão R.C.A. a primeira da América Latina”, antes de irem para o Sumaré passaram pelo Centro da cidade, na Praça da Sé, na Rua Direita, onde a vida fervilhava, para que todos pudessem ver que a novidade tão aguardada em breve seria realidade. O povo esperava a vinda da TV, pois Chateaubriand, utilizando seus jornais, informava tudo o que ia acontecendo com relação à vinda da emissora.
  • No dia 31 de maio de 1950 a cidade parou nas proximidades do Viaduto do Chá. Todos queriam ver as imensas máquinas e a antena para transmissão que iam ser instaladas no topo do Banco do Estado de São Paulo (Banespão), o prédio mais alto na época, com 161 metros, num ponto bem elevado da cidade. Estavam presentes técnicos da RCA Victor no saguão dos Diários Associados e o engenheiro alemão Ernest Bast no topo do prédio. A antena foi instalada naquela agulha, onde tremula a bandeira do Estado de São Paulo.
  • Atualmente as antenas de transmissão estão instaladas no topo de prédios na Avenida Paulista por ser o ponto urbano mais alto de São Paulo – naquela época, salvo raras exceções como o Hospital Santa Catarina, e o Instituto Pasteur, só havia casarões.
  • No número 230 da Rua Sete de Abril, no Edifício Guilherme Guinle, ficava a sede dos Diários Associados. Lá estavam instaladas as redações do “Diário de São Paulo”, do “Diário da Noite”, a sucursal da revista “O Cruzeiro”, o parque gráfico, o MASP e o MAM. Antes da inauguração, ali foram realizados vários testes. No dia 4 de julho aconteceu uma transmissão de TV do auditório do MASP no segundo andar para o saguão do prédio lotado de “telespectadores”. Uma apresentação de gala.
O frei que cantava boleros

Um artista internacional, que estava no Brasil numa turnê patrocinada pelas “Fábricas Peixe”, a da famosa Goiabada, foi convidado para cantar naquele auditório. Tinha sido tenor de sucesso em várias óperas consagradas, galã de filmes produzidos em Hollywood e, voltando ao México, sua terra natal, tornou-se cantor romântico, interpretando tangos e boleros, alguns até compostos por ele.

No auge da carreira artística, larga tudo entra para um convento e vai ser frade. Estamos falando de Frei José Mojica, nascido José de Jesus Mojica, entrando para a vida religiosa passou a ser Frei José Francisco de Guadalupe Mojica. Seus superiores autorizavam suas apresentações em turnês angariando fundos para as ações sociais da irmandade. O interessante é que não cantava músicas religiosas, mas seus sucessos românticos.

Na apresentação, vestindo hábito, canta vários boleros entre eles seu maior sucesso Jura-me pedindo: “besame com um beso enamorado” “quiéreme hasta la loucura”. Versos comentados com muito humor por Lima Duarte: “Que começo maluco da TV: um frei pedindo um beijo enamorado e que seja amado até a loucura”.

Nesse mesmo prédio em 20 de setembro 1960, no décimo quinto andar, o último do prédio, num espaço de 30 metros quadrados, Chateaubriand, que recebera em 1958 a concessão para mais uma emissora, inaugura sem muita divulgação a TV Cultura, Canal 2. Uma “indiazinha” era seu símbolo, já que um indiozinho era o símbolo da TV Tupi, que teve, por causa dela, a frequência de canal mudada de 3 para 4. Sua antena foi instalada onde estivera a da TV Tupi, que havia sido transferida para o Sumaré, na “Torre Assis Chateaubriand”.

TV Cultura, Chateaubriand e a TV Tupi

Em 1963, os “Diários Associados” formam parceria com o Governo do Estado e com o SERTE (Serviços de Educação de Rádio e TV), dando origem a 10 horas de programação educativa na emissora. No dia 28 de abril de 1965 um incêndio provocado por um curto-circuito destrói todo o estúdio. Para dar continuidade à programação a TV Cultura vai utilizar, temporariamente, um pequeno estúdio da TV Tupi.

Em 1966, foi instalada num bosque junto à lagoa Santa Marina na Água Branca. O governador Abreu Sodré em 26 de setembro de 1967 cria a “Fundação Padre Anchieta” (Centro Paulista de Rádio e TV Educativa). Com as perdas do incêndio, as mudanças, tantas dificuldades e prejuízos Chateaubriand vende para o Governo do Estado a Rádio Cultura, que havia adquirido da família Fontoura a emissora de TV e as instalações. A lagoa foi aterrada, prédios modernos próprios para televisão foram construídos e equipamentos modernos instalados. Depois de vários testes entra no ar em 15 de junho de 1969, mantendo o nome TV Cultura.

Contrabando de televisores

O técnico da NBC que estava aqui supervisionando as instalações de uma emissora comercial, ou seja, que se mantém com a venda de anúncios para telespectadores, um mês antes da inauguração pergunta a Chateaubriand quantos aparelhos receptores existiam na cidade. Nenhum!!! Ele havia comprado uma emissora, mas não comprara televisores. Manda então contrabandear 200 aparelhos, pois não havia tempo hábil para a importação legal. No dia da inauguração estavam instalados no saguão do prédio dos Diários Associados, no Jockey Club e espalhados pela cidade, nas praças da Sé, República, Ramos de Azevedo e no Mappin. As fotos mostram o povo aglomerado diante daquelas telinhas.

Até pouco tempo atrás, quando hoje são transmitidos importantes jogos de futebol, vemos no mesmo local a mesma cena, mas com algumas diferenças: a vitrine não é a do Mappin, o televisor não é uma caixinha com pequena tela, transmitindo em preto e branco, mas um moderno aparelho em cores fabricado no Brasil. Não foi instalado pelo dono da emissora mas pela loja que deseja mostrar a qualidade do aparelho, a perfeição de imagens numa imensa tela, a transmissão não está ocorrendo tão próxima, talvez até do outro lado do mundo, não existem apenas aqueles aparelhos ali, mas milhões. Alguns dos que estão ali, assistindo ao jogo, não possuem televisor em casa, ou nem mesmo tem casa, mas outros estão ali porque não dá tempo de chegar na residência, porque não querem assistir usando os modernos celulares, ou simplemente porque gostam de assistir junto de outras pessoas, mesmo que desconhecidas. Quantas diferenças surgiram ao longo desses anos, mas todos de olho na tela, ali, no Centro de São Paulo, como na noite de 18 de setembro de 1950.

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