Patrimônio Historico e Cultural

Governo de São Paulo nunca construiu a sua Sede

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O título até parece uma matéria jornalística, né? Mas aqui estamos usando um fato para dar o tom desse nosso “passeio”: O governo de São Paulo nunca construiu um prédio para ser sua sede, não apenas quando era uma província pobre, como também quando se transformou no estado mais rico do Brasil.

Desde 1964 a sede do governo estadual fica no Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, mas ele não foi construído para essa finalidade. A sede esteve instalada antes em dois outros lugares, que também não foram construídos para esse fim. Você sabe quais foram esses lugares? Vamos então falar um pouco sobre eles, lugares que ainda existem e podem ser visitados, só que  agora com outros usos, diferentes também daqueles que tinham antes de terem sido sedes de governo.

Primeira sede, Palácio dos Governadores, o antigo colégio dos jesuítas. No inicio do povoamento de São Paulo de Piratininga, os jesuítas levantaram uma capela que se tornou um colégio e com o tempo foi sendo ampliado. Em 1759, o Marquês de Pombal expulsa os jesuítas de todo o território português, incluindo as colônias, e confisca todos os e seus bens. Assim, o colégio passa a pertencer à Coroa Portuguesa até que em 1765 Dom Luis Antônio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, requisita o espaço para instalar o Palácio dos Governadores, para isso realizou várias reformas.

Foi sede do poder até 1935. Passou por várias fases, Brasil Colônia, Reino Unido a Portugal e Algarve, Brasil Independente e Brasil República. Com a independência, as capitanias passaram  a ser províncias, os que as dirigiam eram chamados Presidentes de Província. Com a República as províncias passaram a ser denominadas Estados e seus dirigentes passaram a ser Presidentes  de Estado. Getúlio Vargas, em 1930, com uma revolução militar, derrubou a chamada Republica do Café com Leite. Demitiu todos  os Presidentes de Estado” e nomeia interventores para governar os estados. Após a destituição de Vargas, em 1945, e o fim da ditadura, voltaram a ser realizadas eleições diretas, o eleito para comandar um estado passou a ser chamado de Governador.

Não aconteceram  mudanças apenas na nomenclatura, o prédio sofreu várias alterações. Em 1881, na presidência de Florêncio de Abreu, passou por uma reforma radical, perdendo as características coloniais para ganhar colunatas e ornamentos de neoclássico. Com a proclamação da República o prédio passou a pertencer ao Estado. Há tempos o local onde estava situado não era mais chamado de Pátio do Colégio e sim de Largo do Palácio. É instalada uma fonte e um jardim e no entorno começaram a ser construídos prédios para as secretarias estaduais.

O governo do estado comprou da família de Elias Chaves o Palácio nos Campos Elíseos. E a partir de 1911 os Presidentes de Estado vão morar lá, local que passou a servir como local de despachos só em 1935.

No lugar do Palácio é instalada a Secretaria da Educação, que lá permaneceu até 1953, quando vai para o prédio próprio construído no Largo do Arouche.

Os jesuítas haviam voltado para São Paulo em 1918, instalando um colégio na Avenida Paulista. Para a grande festa do Quarto Centenário, como homenagem aos jesuítas, considerados fundadores da cidade, foi devolvida  a eles a área onde estava o antigo colégio, com a condição de ser instalado ali um espaço cultural.

Ao se derrubar toda a construção foi encontrada uma parede de taipa de pilão, sendo a única coisa da época dos jesuítas.

Tudo o que vemos é uma reconstituição, um fake histórico. Inaugurado em 1979 é um museu ligado à presença dos jesuítas em São Paulo. Podemos apenas imaginar que ali foi a sede do poder paulista graças a alguns capiteis (parte de cima de colunas) que ainda são daquela época. Um deles foi  utilizado como altar na missa para a beatificação do padre Anchieta, em 1980.

Voltando ao Palácio dos Campos Elíseos, a segunda sede… Em 1878, Frederico Glete e Victor Nothmann adquirem a chácara Sharp, contratam o engenheiro Hermann Von Puttakamer para projetar o loteamento dos Campos Elíseos, com ruas largas e ortogonais. Primeiro loteamento de luxo em São Paulo, com todos os melhoramentos da época, água encanada, luz, esgoto. A elite cafeeira passou a construir ali seus palacetes.  Entre 1890 e 1892, Matheus Haussler elabora para o poderoso e importante fazendeiro Antônio Elias Pacheco Chaves o projeto para sua  residência, inspirada no castelo de Ecouen, localizado nos arredores de Paris. A obra iniciada em 1896 e concluída em 1899, teve todo o material importado da França. A decoração interna foi realizada  por Cláudio Rossi, arquiteto, cenógrafo que decorou internamente o Theatro Municipal de São Paulo. Em 1911 a família vende para Governo do Estado  o Palacete Elias Chaves, que passa a ser denominado Palácio Campos Elíseos. Os Presidentes de Estado passam a morar lá, a partir de 1911. Em 1935 deixam o Palácio no antigo colégio dos jesuítas e vão despachar no Palácio dos Campos Elíseos.

Vinte e dois de abril de 1964. O Palácio do Governo é transferido para o Morumbi. A residência oficial continuou a ser nos Campos Elíseos. Em 17 de outubro de 1967, 15 minutos de incêndio destroem a parte superior do Palácio com grandes prejuízos, mas sem vítimas (todos foram retirados) e o governador estava despachando no Morumbi. O prédio estava passando por uma reforma de nove meses, faltava pouco para ficar pronto, nesse acidente muitas obras de arte foram destruídas. Esse incêndio acelerou a mudança total para o Bandeirantes.

Como o  Palácio dos Campos Elíseos é tombado, foi restaurado, e dado um uso para ele. Funcionou lá a Secretaria da Ciência Tecnologia, Desenvolvimento e Turismo. Com o tempo também foi levada para outro lugar.  Precisava de grandes reformas e restauros, tanto externamente como internamente. Esteve desocupado de 2006 até 2016 quando foi cedido ao Sebrae para que utilize o prédio e faça as manutenções necessárias. Graças a essa parceria, agora podemos entrar e  apreciar não somente os jardins, mas os belos salões com espelhos venezianos  de cristal, lambris de madeira nobre e pisos trabalhados com belos desenhos feitos de diversos tipos de madeira. O Sebrae funciona de segunda à sexta-feira, na parte de cima do palácio. O andar térreo fica aberto para visitação, é a oportunidade de se apreciar tudo de belo que tem lá. É possível aproveitar também exposições que são montadas e abertas para visitação aos sábados, domingos e feriados.

Estando naqueles espaços podemos imaginar quantas decisões importantes para São Paulo e até para o Brasil foram tomadas, quantos visitantes ilustres estiveram ali hospedados, como por exemplo, o presidente francês Charles De Gaulle, um homem com mais de 2 metros de altura que precisou de uma cama feita especialmente para ele.

Por fim, o Palácio dos Bandeirantes, a atual sede. Também não foi idealizada para sede de governo. Em 1938 a Família Matarazzo pediu ao grande arquiteto italiano Marcelo Piacentini, o projeto para a Universidade Francisco Matarazzo. Ele projetou o prédio com linhas abstratas, muros lisos, amplas fachadas, mas não foi realizado. Só em 1954, no terreno que já era da família Matarazzo, começam as obras, com projeto de Francisco da Nova Monteiro engenheiro das I.R.F.M. O obra foi iniciada, com modificações no projeto, passou a ser no estilo italiano com influência neoclássica.  A obra foi interrompida por problemas financeiros.

Adhemar de Barros (eleito por voto direto), governou  de janeiro de 1963 a junho de 1966, quando foi cassado pelo regime militar. Ele desejava mudar a sede do governo estadual para um local mais tranquilo, o Morumbi era despovoado, não havia praticamente nada. O prédio destinado à faculdade estava inacabado, sem uso. Houve então uma permuta em função de dividas com o Estado, não havendo despesas para sua aquisição. Foi escolhido o nome de Palácio dos Bandeirantes homenageando os antigos paulistas que desbravaram os sertões brasileiros.

Até 1967 permaneceu somente como local para despachos, com o incêndio em 1967 apressou-se a instalação residencial. Nos anos 70 o Governador Abreu Sodré nomeia uma comissão de intelectuais para aquisição de obras de arte a  serem instaladas no Palácio. Assim, no Salão Nobre podem ser vistos painéis de Portinari, Clóvis Graciano, Djanira, Volpi, Adhemir Martins, Tomie Ohtake.

O Palácio passou a ter mais uma  função, a de um espaço cultural. Além daquelas de residência oficial, e local para despachos. Tudo isso pode ser apreciado em visitas monitoradas e eventualmente ali são realizadas exposições. Vale a pena conhecer o espaço que não foi construído para ser sede do governo estadual, mas que para isso foi luxuosamente  adaptado.

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