Patrimônio Historico e Cultural

Belenzinho e suas Vilas Operárias

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O distrito foi criado pela lei número 623 de 26/06/1899 que o desmembrou do distrito Brás. Contam que passou a ser chamado de Belém, porque a palavra Belenzinho não cabia no espaço reservado para abrigar o letreiro do bonde que servia a região.

Antes de mais nada um esclarecimento: Belezinho, não é uma forma carinhosa de designar o bairro onde cresci e moro, é seu nome oficial e assim está na placa do cartório (a foto ao lado não me deixa mentir).

Todos os bairros de São Paulo tem história, infelizmente muitos deles não tiveram sua memória publicada. Houve épocas em que a Prefeitura lançava concurso de monografias sobre os bairros paulistanos, as vencedoras eram publicadas em livros, vários deles estão disponíveis nas bibliotecas municipais. Depois lançou interessantes vídeos sobre os bairros, disponíveis no Youtube. Nos últimos anos, a Editora Matarazzo publicou uma série sobre bairros de São Paulo, com o título: ” Vamos falar do… Belenzinho”, por exemplo, onde pessoas escreveram crônicas ou relataram suas memórias sobre determinado bairro.

O Belenzinho, graças ao escritor Jacob Penteado, desde 1962 tem suas histórias relatadas no livro Belenzinho 1910, publicado pela Editora Martins. Em 2017 foi republicado pelas editoras Narrativa Um e Carrenho Editorial, facilmente encontrável na editora. Leitura agradável, com muitas histórias interessantes, uma viagem no tempo!

Mas que tal um passeio pelos lugares mencionados? Muita coisa mudou nesses anos todos, mas algumas coisas permanecem, como três vilas operárias. Que tal vê-las de perto?

Nosso passeio começa na Estação Metrô Belém, inaugurada em 05/09/1981. A construção da Linha Vermelha do Metrô modificou muito o bairro não só fisicamente mas economicamente. Em torno da estação surgiram vários pontos comerciais. A antiga estação Clemente Falcão, mais conhecida como estação da Quarta Parada foi eliminada e a travessia da linha férrea na Av. Álvaro Ramos foi fechada.

Quanto às fábricas, quase a totalidade já não existe, seja porque foram para outras cidades em função de incentivos fiscais, seja por encerrarem suas atividades. Além das grandes tecelagens como Matarazzo, Cotonifício Paulista, Santista, o Belenzinho se caracterizava pelas fábricas de vidro e de cristais, como a Cristais Prado. No local onde estavam essas fábricas hoje estão grandes prédios, mudando totalmente a fisionomia do bairro, já que em 1916, o Belenzinho foi considerado área suburbana e com isso havia incentivos para a instalação de industrias e de vilas operárias.

Bem próximo ao Metrô, vamos conhecer a primeira dessas vilas operárias, a Vila Cerealina, construída entre 1923 e 1925, ocupa toda uma quadra formada pela Av. Álvaro Ramos, Ruas Júlio de Castilho, Fernandes Vieira e Herval. As casas que ficam à margem do quadrilátero são sobrados. Dentro da quadra existe uma outra vila só de casas térreas. A Vila Cerealina era destinada aos funcionários mais categorizados, alguns estrangeiros contratados para suprir a ausência de técnicos brasileiros. Todas de tijolinho à vista lembrando as indústrias. Com a decadência do Grupo Matarazzo as casas foram colocadas à venda, dando preferência às pessoas que nelas estavam morando. Como não eram tombadas foram sendo modificadas, algumas se transformaram em lojas, salões de beleza, bares, sendo até difícil para quem não as conheceu anteriormente imaginar que tenham sido casas.

Mesmo muitos moradores do bairro não sabem que Cerealina é o nome dessa vila, tampouco a que se refere esse nome. Um amido de mandioca produzido pelas Industrias Matarazzo, necessário para engomar tecidos fabricados pela tecelagem. A ideia do Conde Matarazzo era não depender de fornecedores para produção, ele produzia o que necessitava e criava um produto para aproveitar o excedente, assim transformou o amido de mandioca num produto alimentício, a Cerealina, assim como a Maizena é um amido de milho, um detalhe: essa vila não ficava junto à fabrica.

Vamos agora para outra que ficava junto à fábrica, a Vila Boyes. Construída por Simeon Boyes entre 1919 e 1924, Composta de 97 casas medindo em média 60 M², praticamente, num único tipo: assobradada, geminada, com sala, cozinha, banheiro e dois dormitórios, todas em tijolinho aparente no estilo de vila operária inglesa, distribuídas em várias ruas junto à tecelagem. Na entrada da vila, na Av. Celso Garcia, as três casas maiores eram destinadas aos chefes. Essa tecelagem com as casas foram vendidas para as Industrias Reunidas Fábricas Matarazzo. Muito bem organizada, apareceu em várias partes do mundo quando a revista internacional Life em 1947 fez uma série com 60 fotos de São Paulo, e em uma delas retratou a Vila Boyes.

Sigamos para a terceira vila, a mais famosa de todas em São Paulo, a Vila Maria Zélia. Não era apenas uma vila, era uma cidade! Com igreja, escola para meninos e meninas, creche, campo de futebol e armazéns que vendiam os produtos subvencionados com descontos. Foi inspirada em vilas operárias inglesas e projetada pelo arquiteto francês Paul Pedraurrieux. A vila era composta de 6 ruas principais e 4 transversais, todas calçadas onde estavam 198 casas e outras edificações para os solteiros, totalizando 220 prédios. Todas as casas possuíam chuveiro elétrico, água encanada, esgoto, assoalho, portas e janelas em pinho de riga, base alta para evitar enchentes (a vila estava muito próxima ao Rio Tietê). Variavam de 74,75 m² até 110 m² com quarto, sala, cozinha, banheiro e área de serviço na primeira configuração e outras 2 quartos ou 3 quartos e algumas incluíam um jardim. Deveriam acomodar condignamente todos os membros da família, todos deveriam trabalhar na fábrica. As casas, além de diversos tamanhos, tinham estilos diferente nas fachadas. Era algo muito diferente dos cortiços insalubres onde operários, de outras fábricas, moravam. Num único cortiço moravam até 50 famílias dividindo um só banheiro e um só tanque.

A história da Vila Maria Zélia pode ser contada a partie de 1904, associada à fundação da Companhia Nacional de Juta, em Santana, construída pelo Dr. Jorge Street. Nela chegou a empregar 3.500 operários e para sua expansão comprou um terreno que ia da margem do Rio Tietê (nessa época não havia marginal), até à Av. Celso Garcia, instalando a tecelagem e a estamparia de algodão. Chegou a ter 2 mil teares, 84 mil fusos, 3 mil motores elétricos tornando-se um dos maiores consumidores de energia elétrica em São Paulo. Trabalhavam ali mil empregados e por isso resolveu instalar a vila para esses operários visando saúde, educação e lazer. Foi denominada Maria Zélia em homenagem à sua filha, falecida de tuberculose em 1916, com apenas 16 anos. Com sérios problemas financeiros em 1924 vende a fábrica para a Família Scarpa, que muda o nome para Vila Scarpa, em 1929, fábrica e vila são vendidas para a família Guinle voltando a ser Vila Maria Zélia. As dívidas para com o governo foram se acumulando e o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários (IAPI) confisca a fábrica. Os moradores permanecem, passando a ser inquilinos do Instituto.

A fábrica desativada, se torna um presídio político de 1936 a 1937, na ditadura Vargas, destinada a opositores do regime e também comunistas. Em 1939 a Goodyear monta a primeira fábrica de pneus no Brasil, derruba assim a tecelagem, a creche, o jardim da infância e 18 casas, restando ainda assim, 171 casas que no Governo do Presidente Castelo Branco passaram para o Banco Nacional da Habitação (BNH) e em seguida foi dada a propriedade aos que nela moravam e pagaram aluguel por todos esses anos ao IAPI.

Ruínas da escola na Vila Maria Zélia

Foi tombada em 1992, mas nessa época muitas casas haviam passado por reformas e modificações, poucas estão na forma original. Alguns filmes e novelas foram gravados na Vila, um deles O Corintiano, de 1966, produzido e estrelado por Mazzaropi, que chegou a morar na vila, mostra uma casa que ainda hoje está igualzinha como no filme, pelo menos externamente. Além deste filme, O País dos Tenentes, gravado em 1987, e a novela Salário Mínimo, 1977 da TV Tupi. Várias peças de teatro já foram encenadas no antigo armazém. Ali funciona um Centro Cultural com fotos e objetos da época da fábrica. Os passeios na vila são organizados pela Associação Cultural. Também as ruinas da escola são utilizadas para fotos artísticas. Ruinas!? Sim! As casas são propriedades particulares, mas os prédios, armazéns e escolas são do Governo e não sofreram nenhum tipo de manutenção ou reforma. A Vila recebe muitas visitas, público em geral, fotógrafos, alunos de Arquitetura, brasileiros e estrangeiros. Numa dessas visitas estrangeiros se encantaram com a vila e desejavam sua total restauração. Conseguiram uma verba com a Comunidade Europeia, ainda mais que o projeto da Vila havia sido de um arquiteto francês. Essa verba chegou a estar disponível com algumas condições. Uma delas: a instalação de uma escola para formação de restauradores que iriam aprender na prática realizando a restauração dos prédios, mas devido à burocracia e a falta de interesse das nossas autoridades, o projeto não foi à frente e a Comunidade Europeia não cedeu o dinheiro. Pena! Qual será o futuro desses prédios?

Tenho certeza que esse tour por escrito, fez com que imaginasse como está tudo isso, né? Então, o que acha de uma visita presencial a essas vilas do Bairro do Belenzinho? Vamos turistar!!

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